quinta-feira, 25 de março de 2010

Conversa Inusitada

É raro quando situações singulares acontecem e percebemos com clareza o momento. Foram poucas as vezes que tais situações, que redefinem paradigmas, aconteceram comigo. E uma delas foi na viagem para Brasília - DF.

PobrezaNa primeira tarde em Brasília, eu e Pri fomos ao shopping comer e enquanto esperávamos meu amigo voltar da aula. Programa despretensioso que normalmente eu nem relataria. Caminhávamos como turistas exemplares: despreocupados, alheios a tudo e olhando a cidade. Perto do shopping fui abordado por um pedinte normal, daqueles que qualquer morador de uma cidade de médio porte vê todos os dias: homem normal, fedor normal e farrapos normais.

Como me é de costume, já preparei o discurso de negação. Usaria o básico: "Hoje não dá" ou "Estou sem dinheiro". Quando o sujeito me abordou, sem prestar a menor atenção nele, soltei a negativa clichê aleatória que escolhi. Normalmente seria o suficiente, mas não foi! Foi impossível ignorá-lo novamente quando ele disse: "Mesmo sabendo que turista sempre tem dinheiro, eu pedi algo para comer. No shopping aceitam o seu cartão de credito".

Confesso que fiquei impressionado pela frase (pois ele disse exatamente as palavras que escrevi; sem qualquer "licença poética" da minha parte). Mesmo assim, retruquei falando que eu iria jantar e talvez demorasse, mas ele continuou argumentando durante o trajeto. Entre alguns " ... eu moro na rua; posso esperar aqui..." e "Morar na rua é difícil! Quem não bebe começa a beber. Quem não usa droga passa a usar. É algo que acaba com o psicológico da pessoa." eu já estava convencido a comprar algo para ele comer.

Até chegar no shopping, descobri que o homem era um ex-soldador metalúrgico, que perdera o emprego há 2 anos e nunca conseguiu recolocação, pai de 1 filho (que também mora na rua), ambos abandonados pela mulher/mãe após o ocorrido. Era o suficiente. Se não fosse verdade, pelo menos era uma mentira memorável, que valeria ser relembrada.

Uma vez no shopping, não enrolei para comer e comprei um McQualquer-coisa (afinal, ele não reclamaria) na saída. Saí pela mesma porta a procura o mendigo mas, para minha surpresa, ele não estava mais lá! E quem acabou comendo o lanche frio fui eu, que nem gosto de McDonald!

Chame de acaso ou do que preferir: o fato é que a conversa do mendigo (verdadeira ou apenas uma "conversa que funciona") sobre como a imprevisibilidade de alguns fatos podem mudar radicalmente as convicções e a dignidade de uma pessoa me impressionou muito! E foi algo que mudou a forma como eu enxergo a pobreza.